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Uma pequena fábula
Conta-se que na antiga China, havia um imperador que se queixava amiúde dos problemas que aconteciam no império. Uma vez, ele recebeu a visita de um sábio que lhe entregou uma pequena caixa, admoestando-o de que tal caixa deveria ser aberta, unicamente, em caso de necessidade vital. Do contrário, perderia toda a razão de existir.
Houve o tempo em que a China estava tendo uma crise sem precedentes. Crianças morriam de fome, doenças se alastravam, a população crescia desordenadamente... e, num impulso, o imperador tentou abrir a caixa. Hesitou um pouco, e constatou que algo de pior poderia acontecer, deixando a caixa lacrada.
Tempos depois, para piorar a situação, surge uma guerra com o vizinho Japão. As tropas japonesas se mostram mais eficientes e começam a dizimar toda a população da China. Ainda assim, Sua Majestade Imperial mantém a caixa lacrada. Até que as tropas começam a perseguir o próprio imperador, e ele se encontra à beira de um precipício, dentro do qual há vários leões. Ou seja, ou as tropas o matam, ou os leões o matam. Aí, o imperador não teve outra saída a não ser abrir a caixa. De dentro da caixa, saía uma fita onde se liam três ideogramas, cujo significado era, simplesmente: "tudo passa".
Perplexo, o imperador viu as tropas se retirarem. Muitos anos se passou, e até à morte o imperador permaneceu com essa frase na cabeça. Ou seja... nada neste mundo é definitivo, à exceção da morte. Efetivamente, tudo passa. Vivemos num mundo regido por forças aleatórias, em que nunca temos certeza de como estará nossa situação no dia subseqüente.
Esta historieta fictícia, que narrei acima, descreve a forma de como segue a vida do ser humano. É verdade que quando dizemos "tudo passa", referimo-nos tanto aos momentos negativos quanto positivos. Tudo neste mundo é absolutamente circunstancial. Nada é definitivo, e por esta razão, se desejamos viver normalmente, é mister que o homem esteja focado no presente.
Há três campos na vida que são especialmente necessários para manter a qualidade de vida do homem: o trabalho (e, por extensão, sua condição financeira), a saúde e a vida sentimental. Isto é o que regula a qualidade de vida de cada um e, seja qual fôr a situação presente desses campos, é sempre circunstancial. Por esta razão, jamais alguém deve se gabar por ter um bom posto de trabalho e ser muito rico, pois basta uma crise para colocar tudo isso a perder, assim como não devemos lamentar a pobreza, mas lutar para que a futura condição seja de riqueza. Jamais alguém deve se entregar de corpo e alma à pessoa amada, pois o amor pode deixar de ser recíproco num tempo futuro, e aí a grande alegria converte-se numa soturna frustração, assim como também não se deve lamentar a solidão, pois muitas vezes um grande amor surge inesperadamente. E sempre, todos os dias, fazer o que puder para manter a qualidade de vida, uma vez que a boa saúde pode desaparecer subitamente devido a uma inesperada enfermidade. E mesmo a pior das enfermidades pode ser circunstancial, pois muitas vezes o organismo responde muito mais favoravelmente do que se poderia esperar, resultando na cura total, ou com poucas seqüelas.
A partir do momento em que o homem compreende isto, torna-se mais frio. Já não se alegra tanto com as glórias, tampouco padece com as desgraças. Compreende que é falso dizer que o homem nasceu para ser feliz. Como também é falsa a idéia de que o homem merece sofrer. O homem está no mundo para obter experiências e adquirir consciência. Muitas das desgraças são males necessários, a fim de que o homem tenha o máximo de expansão de sua consciência. Uma vez superando uma desgraça, terá dado um passo a mais em direção ao crescimento espiritual. E a forma de superá-las é compreender a moral desta pequena fábula e atuar para que melhores frutos sejam ceifados nos dias vindouros.
Escrito por Fábio Soldá às 01h42
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