| |
A demagogia sobre a periferia
Nesta última semana tive a desagradável surpresa de ver o muro da casa da minha vizinha com novas e gigante rastreamento. Mas quem não tem essas necessidades logísticas pode perfeitamente utilizar o transporte coletivo - que é mais barato e em cidades como São Paulo podem representar uma significativa economia de tempo - e o telefone público. Até meados da década de 90 pouca gente usava telefone celular, nem por isso as pessoas viviam pior.
É evidente que a intenção deste artigo não é fazer críticas a ninguém que tenha computador em casa, celular, automóvel, etc. até porque este artigo está sendo escrito num computador doscas pichações. Aquela parede dela está condenada; não adianta pintar, lavar, fazer o diabo a quatro, porque continuam sempre a pichar. Em alguns casos a gente percebe pela assinatura que a maior parte dos pichadores é da periferia - Grajaú, Vila Nova Cachoeirinha, Rio Pequeno, Cidade Tiradentes e outros bairros pobres da cidade, embora haja exceções - já vi pichador se assinando como de Pinheiros. Para quem não é de São Paulo, os bairros de Pinheiros e da Vila Madalena são os bairros nobres da cidade mais pichados (até mais que certos bairros periféricos). E, seja em Pinheiros, seja em Guaianazes, as pichações são sempre vistas como formas de "auto-afirmação".
Aí eu pergunto: auto-afirmação de quê? Será que para se auto-afirmar, é necessário depredar o patrimônio alheio? É necessário condenar a cidade à feiúra e à nojeira, como se tem visto pela cidade afora? E não me refiro ao chamado "grafite", que é uma espécie de pichação mais elaborada, com desenhos e tudo - que são horrorosas, mas ainda assim, mais aceitáveis que as pichações propriamente ditas. Não, eu me refiro a pichações mesmo, aqueles rabiscos feitos com spray e que, na grande maioria das vezes, não significa nada. Muitos reclamam de a pichação ser associada à depredação - mas o que é, então? Pichação é, SIM, depredação do patrimônio alheio ou público.
Existem muitos intelectualóides que defendem a pichação como forma de liberdade de expressão, de auto-afirmação, e coisa, e tal - muito provàvelmente porque todos eles devem morar em algum condomínio fechado, como Alphaville e o Panamby e pouco têm que conviver efetivamente com a vida urbana, pois somente lá eles estão a salvo de qualquer tipo de vandalismo (sim, até nos Jardins existem imóveis pichados). E é aí também onde a gente vê a demagogia que é feita com a periferia e com as favelas.
Existe uma coisa interessante quanto a isso: a mída em geral mostra as coisas da periferia e das favelas como se fosse uma coisa esplêndida, fantástica - mas sempre seguindo o lema: "dai ao centro o que é do centro; à periferia o que é da periferia" Ora, o pessoal da periferia só está se auto-afirmando para o centro rico e estruturado quando se deslocam para lá a fim de pichar e deteriorar os imóveis da cidade. Agora, por que será que os trabalhos sociais realizados na periferia são somente ensinando a eles coisas que são rascunhos de arte? Mostra-se o grafite, o hip-hop, o pagode, e coisas similares como se fossem um colosso. Mas no fundo todo mundo sabe que não é, pois qualquer um consegue fazer o que eles fazem, e só mostram isso para segregar o que é da periferia e o que é da chamada "elite". Agora, levar alguma coisa de qualidade para eles, isso também ninguém leva. Quem tem mais dinheiro, normalmente tem três tipos de reação com a periferia: ou de indiferença, ou de desprezo, ou de piedade. Mas nunca como um ser humano normal. As ONGs deveriam se ocupar em ensinar teoria musical para eles, história da arte, a fim de que de lá saísse alguma coisa de boa qualidade; e o governo deveria adotar a educação de base como prioridade máxima e absoluta. Mas aí há quem argumentem: "mas é melhor fazerem isso do que estarem roubando, matando, etc."; concordamos. Mas não concordamos em se contentar com o que é medíocre. Porque é isso o que se faz: tira essa gente de uma condição ruim para colocar numa condição medíocre. Por que não avançar para o que é realmente bom, e não ficar só na mediocridade? E como esperar que eles sejam pessoas ditas "comuns" se damos a eles um tratamento "periférico", diferente do que é dado no centro?
Obs.: se alguém que lê este artigo pertence a alguma ONG que realiza esses trabalhos que eu mencionei como ideiais, queira nos perdoar; mas não conhecemos nenhuma e alegrar-nos-íamos muito se descobríssemos que existe alguma.
Escrito por Fábio Soldá às 18h31
[]
[envie esta mensagem]

|
|
|