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As tênues diferenças entre o essencial e o supérfluo
Temos notado nos últimos tempos, principalmente entre a classe média e alta, que existem certos artigos sem os quais eles não conseguem conceber o mundo. Muitas vezes, se uma pessoa não dispõe de um desses artigos, é vista quase como um ET, ou então uma pessoa muito pobre. De uma forma geral, existem somente cinco coisas que são consideradas absolutamente essenciais ao ser humano: alimentação, vestuário, moradia, educação e acesso à saúde. Somente com essas cinco coisas já são absolutamente suficientes para um ser humano viver com dignidade. Nem precisa ser coisa muito sofisticada, não: quem tem uma dieta baseada tão somente em cereais, frutas, verduras, leite e ovos pode viver muito bem, assim como quem se veste de camisa e calças, mesmo que de tecido grosseiro; quem mora numa casa onde tenha ao menos um cômodo para dormir e um banheiro, mesmo que não haja luxo algum lá; quem usa o sistema público de saúde - como a grande maioria dos brasileiros; e quem sabe ler, escrever e fazer cálculos, mesmo que egressas da escola pública.
Evidentemente as pessoas que vivem somente com essas coisas são vistas com certo preconceito pela sociedade, apesar de que todos precisam do serviço dessas pessoas também. Peões de obras, serventes, catadores de papel, e outras funções exercidas, normalmente, por pessoas muito humildes são tão importantes para a sociedade quanto os engenheiros, administradores, advogados, médicos, e outras funções que costumam ser exercidas por pessoas mais aculturadas. E tem gente tão hipócrita que vive a defender os direitos dos "menos favorecidos", mas não aceita um deles no mesmo círculo social. Uma prova disso é que, normalmente, quando conhecemos uma pessoa pela primeira vez, normalmente deduzimos que ela é da mesma classe social que nós. E pode acontecer que muitas pessoas tenham um nível cultural bom, mas não dispõem de certos bens - ou porque não têm dinheiro, ou porque simplesmente não querem. Quando simpatizamos com uma pessoa, ou mesmo no mercado de trabalho (ainda que esses objetos não tenham muita relação com a função exercida pelo interlocutor), logo vamos solicitando e-mail, telefone celular, ou então vamos dando as coordenadas para alguém chegar no local sempre de automóvel - presumindo que o interlocutor já tenha tudo isso.
O que ninguém se deu conta é que ter computador em casa, ter telefone celular e ter automóvel são coisas completamente supérfluas! Apesar de serem artigos que a maioria da classe média tem, pode muito bem viver sem isso, a não ser quando esses artigos são tratados como bens de capital, e não como bens de consumo.
O computador, como bem de capital, acabou se tornando comum nos domicílios de classe média, uma vez que permite um ganho de tempo significativo em certos processos, como o controle do orçamento familiar, ou mesmo atividades do trabalho, que podem ser completadas em casa. Para os demais usos, como o entretenimento (jogos e acesso à Internet), muito comuns entre os jovens, existem as chamadas LAN Houses.
Bens como o automóvel e o telefone celular só são indispensáveis nas atividades relacionadas à logística. Os automóveis (carros, vans, caminhões, etc.) podem ser utilizados para transporte de cargas ou pessoas de um ponto para outro, e o telefone celular serve para fazer rastreamento. Mas quem não tem essas necessidades logísticas pode perfeitamente utilizar o transporte coletivo - que é mais barato e em cidades como São Paulo podem representar uma significativa economia de tempo - e o telefone público. Até meados da década de 90 pouca gente usava telefone celular, nem por isso as pessoas viviam pior.
É evidente que a intenção deste artigo não é fazer críticas a ninguém que tenha computador em casa, celular, automóvel, etc. até porque este artigo está sendo escrito num computador doméstico. A questão aqui é analisar se esses artigos são dispensáveis ou não, e em que medida melhoram a qualidade das pessoas, ou se a ausência desses artigos necessariamente faz falta ou não às pessoas.
Escrito por Fábio Soldá às 15h16
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