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A montagem paulistana de Lohengrin
Estive ontem no Teatro Municipal de São Paulo, assistindo à montagem da ópera Lohengrin, de Richard Wagner. Na minha companhia estava a Mayra Terzian, graças a quem voltei a compor e que ultimamente é a única pessoa que tem comentado nesse blog, e a Fernanda Marize, outra amiga muito querida, que estuda na mesma classe que eu na faculdade.
A montagem foi realizada sob a direção cênica de Cléber Papa, a batuta do maestro Ira Levin, tendo o tenor russo Leonid Zachozaiev como personagem-título da ópera, a soprano argentina Graziela von Gyldenfelt intepretando a Elsa, o baixo estadunidense Stephen Bronk no papel do rei Heinrich, o barítono brasileiro Lício Bruno interpretando Friederich von Telramund, a soprano brasileira Leila Guimarães no papel de Ortrud, e o baixo José Gallisa como o arauto do rei.
A montagem da ópera ficou um pouco deficiente devido à presença de um enorme quadrado no centro do palco, presente nos três atos. Como estávamos no balcão nobre, atrapalhou um pouco a vista lateral, apesar de não prejudicar a beleza do cenário, e um pouco frustrante também foi a ausência do coro no palco ao tocar o coro nupcial (Treulich gefürht), o número mais famoso da ópera. Mas, de uma forma geral, foi muito bonito. Essa ópera, talvez, seja a mais popular de Wagner, principalmente pela emoção que é impressa em cada nota da ópera, e a forma como é trabalhado o leitmotiv. A música se torna suave quando há o diálogo de Lohengrin com o cisne, ou na cena de núpcias dele com a Elsa, pomposa quando ele finalmente aparece, atendendo aos chamados do rei, e especialmente grave quando ele anuncia sua linhagem, qual seu nome, e de onde ele vem. Mas a melhor cena foi o encerramento, quando o cisne que vem puxando o barco de Lohengrin se transforma no herdeiro de Brabant, que todos julgavam mortos. Foi praticamente impossível não segurar a comoção.
De uma forma geral, as óperas de Wagner (à exceção de Tristão e Isolda) não acabam em tragédia. Dificilmente as óperas são finalizadas com uma morte, e quando a morte acontece, não é uma morte trágica como ocorre no caso da maior parte das óperas românticas italianas, em especial Tosca, Lucia di Lammermoor e Il Trovatore, para citar as mais famosas. Todas elas são dramas passionais e as mortes acontecem de maneira brutal. As óperas wagnerianas, ao contrário, são dotadas de um misticismo sublime. A maior parte delas - o ciclo do Anel do Niebelungo, Tannhäuser, Parsifal, e a própria Lohengrin - trazem um excelso significado místico, como Max Heindel descreveu em seu livro "O Mistério das Grandes Óperas". O enrendo de Lohengrin é, grosso modo, a história de Elsa, uma nobre do ducado de Brabant acusada de assassinar seu irmão mais novo para que ela se tornasse a herdeira, e ela invoca o cavaleiro (Lohengrin) em sua defesa, que chega puxado por um cisne branco. Lohengrin e Elsa se casam, mas com a condição de Elsa nunca perguntar a ele nem tentar saber quem ele é, nem de onde veio, nem qual é sua linhagem. Mas Elsa, sob a influência de sua inimiga Ortrud, sente-se insegura diante do cavaleiro, achando que ele tem algum segredo que pode representar a sua desgraça se fôr revelado. Sendo assim, Elsa quebra a promessa e Lohengrin revela sua origem: ele é um cavaleiro do Santo Graal, filho de Parsifal, que foi enviado para defendê-la da acusação. Com a revelação, Lohengrin volta para o castelo de Monte Salvat, de onde saiu, e o cisne se transforma no irmão de Elsa, que todos julgavam mortos.
Como se pôde constatar, o enredo é absolutamente sublime, tal como o é a música. Na mesma linha, existe ainda a ópera Der Fliegende Holländer,a primeira composta por Wagner, que, ao que consta, nunca foi encenada em São Paulo. Infelizmente, porque é outra ópera que mereceria calorosos aplausos tal como Lohengrin. Mas falo a respeito dela em outra ocasião.
Escrito por Fábio Soldá às 21h46
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