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A Gazeta da Meia Noite
 


A noite mágica do ano

Considerada a segunda festa mais importante do Cristianismo, o Natal é a data do ano onde mais se produz a celeuma das compras. É a época em que o comércio fatura mais. É interessante lembrar que o Natal perdeu um pouco a conotação do Cristianismo para se transformar numa data puramente comercial. Tanto que países não-cristãos, como o Japão e a China, também comemoram o Natal - sei disto porque uma amiga minha correspondente da China, a Xiao Jingshu, me mandou e-mails com votos de "Feliz Natal", e disse que ganhou presentes, tinha árvore de Natal e tudo, mesmo ela não sendo cristã.

No Brasil, há a vantagem de fazer parte do hemisfério Sul. O Natal não foi instituído no dia em que Cristo realmente nasceu, mas no dia do solstício de inverno. No Brasil, este é o dia do solstício de verão. O solstício de inverno é o momento do ano em que o sol está no ponto máximo do hemisfério oposto, e inicia a jornada contrária, até atingir o solstício de verão. Sendo assim, o solstício de inverno é a noite mais longa do ano, e geralmente a mais fria. Sabe-se que quanto menos brilha o sol externo, mais brilha o sol interno. O frio favorece a introspecção, facilitando muito a concentração nas forças espirituais. Por isso mesmo o brasileiro que leva o Cristianismo a sério é favorecido - especialmente na capital paulista e nos estados do sul, que são as regiões não-tropicais. O solstício de inverno se dá em junho, e as pessoas não estão contaminadas com a celeuma do comércio.

O que não significa que não se deva comemorar o Natal em dezembro, também. Particularmente, sou contra decretar o Natal como feriado, por se tratar de uma festa religiosa. Existem comunidades judaicas, muçulmanas, espíritas, e de outras religiões no Brasil. Religiões estas que merecem o mesmo respeito e deferimento que o Cristianismo. Mas, de qualquer forma, o mês de dezembro é considerado um mês de alto comércio e altas festividades. Enquanto os cristãos comemoram o Natal, festa de celebração do nascimento de Jesus Cristo, os judeus comemoram o Hanukkah, a "Festa das Luzes" (dia 25 de Kislev, no calendário judaico), festa que celebra a vitória dos Macabeus sobre a dominação grega em Jerusalém. É uma festa que também rende presentes materiais à comunidade judaica.

E o que dizer do Natal dos países não-cristãos? Tornou-se, simplesmente, uma festa à lenda de São Nicolau Taumaturgo, cardeal arcebispo da cidade turca de Mira, mais conhecido como "Papai Noel". Cultuado com mais fervor religioso pelos cristãos ortodoxos, foi consagrado pelos milagres que realizou em Patara (Turquia), sua terra natal, e em Lícia, especialmente quando tirou um comerciante da falência, que pretendia ganhar dinheiro em cima da beleza de suas três filhas para suprir as necessidades, usando sacos com moedas de ouro. Suas relíquias foram transferidas para a cidade de Bari, na Itália, no século XI. Até hoje é objeto de várias lendas, sendo a mais popular a de que ele vive na Lapônia, no norte da Finlândia, onde é auxiliado por elfos numa fábrica de brinquedos, que distribui a crianças do mundo inteiro.

Como exercício de lógica para sustentar essa lenda, imaginemos a logística necessária para distribuir presentes a todas as crianças do mundo. Se hoje até as transportadoras com selo Transqualit Ouro e toda a frota de carretas, trucks, bitrens, mais o rastreamento via satélite, dão uma margem de uma semana para a entrega das mercadorias do embarcador para o destinatário, imaginemos o tamanho do trenó e a quantidade de renas necessárias para tracionar tamanho volume de carga - e o que é mais impressionante: em trinta e seis horas. Mesmo que haja um elfo para cada 10 milhões de habitantes - tamanho de uma cidade como São Paulo (o que, inclusive, daria uma despesa com recursos humanos que não compensaria a demanda - e pior ainda: sem que o velho Nicolau cobre um tostão por cada presente), nem mesmo a IBM com seus supercomputadores até hoje conseguiu construir um sistema tão eficiente a ponto de controlar, simultaneamente, as atividades de todos esses duendes. Se cada um deles enviasse um e-mail até o sistema central da fábrica da Lapônia, certamente sobrecarregaria o computador, a menos que esse tivesse capacidade de processamento da ordem de um THz (terahertz). O máximo a que se chegou hoje foram 4 GHz. Um computador desses, se viável, certamente custaria mais de um trilhão de dólares. O homem mais rico do mundo tem 50 bilhões de dólares. Como seria possível, então, construir uma fabríca de brinquedos tão perfeita, com um custo dessa ordem sem cobrar um centavo sequer de cada criança que recebe o presente - isso sem contar a despesa com recursos humanos? Logo se vê que, por meio da óptica administrativa, não há verossimilhança nesta lenda.

Desta forma, até para poupar um pouco a cabeça dos pais ao explicar isso para uma criança, fica mais fácil esquecer essa lenda absurda e lembrar do Natal como a data de nascimento de Cristo. A todos que lerem esta mensagem fica, portanto, meus votos de feliz Natal, com Cristo dentro de cada um, e um ótimo ano de 2005. A próxima postagem deste blog virá após a viagem do autor ao Paraná e Santa Catarina, que será contada aqui.

Iconografia de São Nicolau Taumaturgo, o "Papai Noel". À esquerda, a representação moderna da igreja ortodoxa, no século XX. À direita, a imagem medieval do Papai Noel.



Escrito por Fábio Soldá às 22h38
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