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A Gazeta da Meia Noite
 


Relatório da viagem - Parte I

Curitiba, 2 de janeiro de 2005

Após o período transcorrido de pouco mais de dois anos que não visito esta cidade, venho novamente de passagem por aqui. A última visita data do dia 23 de novembro de 2002, quando visitei uma amiga muito querida, cujo nome é Danmaris Brunet. Hoje, mãe de família com a pequena Suhaylla, infelizmente não está presente; continua a viver no bairro do Pinheirinho, zona sul da cidade. A visita à casa dela, na ocasião, rendeu-me a composição da formosa Sonata do Pinheirinho, uma de minhas poucas peças para piano. Na última hora do dia, especialmente, dei pela falta dela quando fui jantar no restaurante Velho Madalosso, no bairro de Santa Felicidade (zona norte), onde houve uma bela apresentação de canções italianas com cantores de formação lírica.

Desconsiderando o especial significado que a cidade de Curitiba exerce no autor deste blog, por várias razões, pela primeira vez observei a cidade com um olhar mais crítico, fazendo algumas comparações com a cidade de São Paulo. É interessante que muitos paulistanos procuram Curitiba como alternativa para morar em São Paulo, fugindo da correria da metrópole, mas Curitiba é apenas uma cidade menor, por isso não tem muito trânsito. Em Curitiba, assim como em São Paulo, também vemos mazelas como crianças fazendo micagens no semáforo para conseguir esmolas, pichações, flanelinhas, comércio ambulante, e favelas (interessante notar que as favelas de Curitiba são feitas de toras de madeira, e não de alvenaria, como em São Paulo), ou seja, problemas que são vistos em qualquer metrópole brasileira. Em contrapartida, São Paulo parece uma cidade ao mesmo tempo grandiosa e desajeitada, comparada a Curitiba. Se há paulistanos que preferem viver em Curitiba a viver em São Paulo - e há razões fortes para isso - por outro lado não verão lá a imponência de edifícios como os da Avenida Paulista, da Faria Lima ou da Berrini; não verão regiões com a exuberância dos Jardins, de Moema ou de Higienópolis (nem mesmo no Batel). O Parque Barigüi, o maior de Curitiba, também não tem uma fonte luminosa como o Ibirapuera, assim como nenhum parque em São Paulo tem um memorial de imigrantes tão esplendoroso quanto o dos ucranianos no Parque Tingüi, um dos mais badalados de Curitiba, que tem o mesmo tamanho do Ceret, no Tatuapé - mas sem os enormes edifícios residenciais em volta, nem algum shopping como o Anália Franco. O centro de Curitiba lembra muito o de São Paulo de uma forma geral, apesar de não ter nada parecido com a Catedral da Sé, o Teatro Municipal, o Mosteiro de São Bento e o Vale do Anhangabaú - e também não ser apinhado de gente para todo lado e vendedores ambulantes aos berros, como se vê em São Paulo. Ou seja, de uma forma geral, a grande diferença de uma cidade para a outra está apenas no tamanho. A vantagem de uma compensa o problema da outra, e vice-versa.
Sempre fui um crítico contumaz de São Paulo, achando que Curitiba era um exemplo nacional a ser seguido em muitas coisas (e realmente é), mas São Paulo também tem muito a passar a Curitiba. Desta vez, tiro meu chapéu para a cidade de São Paulo. Esta primeira impressão de Curitiba me fez rever algumas críticas a São Paulo e a constatar um fato interessante: São Paulo e Curitiba são duas cidades-irmãs. São Paulo tem o porte e a riqueza da irmã mais velha. E Curitiba tem a formosura da irmã mais jovem.

3 de janeiro de 2005

O dia de hoje foi dedicado ao passeio à cidadela de Morretes, a cerca de 80 km de Curitiba. Há uma pequena estrada que a liga até Curitiba, conhecida como Caminho da Graciosa. Uma parte dela é pavimentada com paralelepípedos e é bastante sinuosa. É uma via essencialmente turística, sem uma engenharia de tráfego muito eficaz. Contudo, trata-se de um belo caminho, com uma paisagem dominada por hortênsias e por araucárias. Morretes é uma cidade muito exígua, já próxima ao litoral, e por isso mesmo muito quente e abafada. Desprovida de asfalto (a pavimentação é quase inteiramente em paralelepípedos), sobrevive basicamente com o artesanato local e a cultura típica. Todos os restaurantes servem o barreado, prato mais típico do Paraná, e muitos deles limitam o cardápio a isto, o que acaba sendo especialmente problemático para vegetarianos.
A parte da tarde foi reservada a um giro pelo centro histórico de Curitiba, desde a praça Santos Andrade até a praça Osório, seguindo o calçadão da rua XV de Novembro. Esta é a prova cabal de que o problema dos camelôs pode ser solucionado, ao contrário das ideias que os últimos prefeitos de São Paulo advogavam: Luíza Erundina, Paulo Maluf, o Pittanic e a finada gestão Martaxa $uplício. Ela, certamente, jamais visitou o centro curitibano. As gestões Jaime Lerner e Cássio Taniguchi solucionaram esse problema com as chamadas Ruas da Cidadania, para onde os camelôs foram transferidos, sem que houvesse qualquer prejuízo na cidade, salvo, talvez, pelos danos ocasionados pela pirataria. Um ou outro camelô ainda se vê espalhado no centro, mas vendendo artigos de baixo valor agregado que não configuram pirataria, como ainda se vê no centro paulistano. Parece que em São Paulo somente as ruas XV de Novembro e as imediações do Edifício Martinelli e do Mosteiro de São Bento estão a salvo. Esperamos, honestamente, que o prefeito José Serra (PSDB), recém-empossado, consiga solucionar esse problema paulistano tão bem administrado em Curitiba. Queremos crer que ele terá incluído esse problema de pirataria, causa direta de desemprego, em seu discurso de posse quando disse que São Paulo não seria mais uma terra de oportunidades para novas correntes migratórias, e que o governo há de ser em benefício de todos os paulistanos indistintamente, sem aquele discurso petista demagógico de atender aos "mais necessitados".


Treze Tílias, 4 de janeiro de 2005

Saindo de Curitiba, após uma demorada viagem de 380 km, desembarquei hoje em Treze Tílias, uma minúscula cidade encravada no meio-oeste de Santa Catarina. A rodovia é uma das mais mal sinalizadas do Sul, provavelmente. A inóspita paisagem causa um certo desespero. Terras planas de ambos os lados, rodovia de pista única, sem um único veículo sequer, sem qualquer pessoa andando, ou qualquer animal pastando nas pradarias. Foi mais de uma hora cruzando o gigantesco município de Água Doce, limítrofe a Treze Tílias. Na chegada ao destino, vemos que a cidade está quase deserta e parece ter poucos turistas, apesar da graciosa arquitetura em estilo gerâmico (não confundir com o enxaimel de cidades como Blumenau e Campos do Jordão) dos imóveis e pelo colorido das flores dos canteiros dispostos ao longo das calçadas, variando em tons de amrelo, magenta, vermelho e alaranjado.
A vida noturna de Treze Tílias, ao que parece, acontece principalmente nos hotéis. Estivemos em um destes, onde houve um café colonial e uma apresentação de danças tirolesas. Há quem diga que estas tradições não existem mais no Tirol, sendo, contudo, preservada em Santa Catarina. De certa forma, pode-se dizer que isto integra a brasilidade, tanto quanto os sambistas cariocas, a cavalhada goiana, o boi-bumbá do norte brasileiro, o frevo pernambucano, a cultura pampeira gaúcha e a cultura caipira paulista. As danças são belas, apesar de ter um considerável grau de bizarrice: homens que se esbofeteiam, moças que são colocadas de ponta-cabeça, sinos tilintando conforme a música executada no acordeão, rapazes que sentam nas pernas de senhoras na platéia, e por aí vai. Muitas dessas danças são acompanhadas de tradicionais músicas germânicas, tais como a famosa Schneewalzer, de Thomas Koschat, e as tradicionais schunkelieder alemãs com o refrão "weia, weia, o", tão soez nas cantigas de roda.


Escrito por Fábio Soldá às 23h33
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Relatório de viagem: parte II

6 de janeiro de 2005

Pulamos o dia 5 por não acharmos nada digno de nota para ser inserido aqui, salvo um city-tour onde também estava presente uma família de chineses, da ilha de Taiwan.
O dia de hoje foi marcado pela visita ao município vizinho de Fraiburgo, a "capital brasileira da maçã". Parece que a maçã se incorporou ao símbolo da cidade, de tal sorte que até as placas indicativas dos logradouros têm formato de maçã. Uma guia turística, chamada Priscila, nos acompanhou até o parque principal da cidade, onde está plantada uma araucária de 200 anos, e, portanto, já no fim de sua vida, quando as raízes entram em decomposição e a árvore tomba. Por uma lei do Ibama, é proibido o uso da madeira de araucária até mesmo depois de expirado o tempo de vida da árvore, que deve ser mantida no parque. Visitamos também uma vasta plantação de macieiras, cujo tempo de colheita é somente durante o outono e o fim do verão.
À noite, no hotel vizinho, de volta a Treze Tílias, houve uma apresentação do grupo musical folclórico Edelweiß, nome de uma flor que nasce nas rochas dos Alpes. A maior parte das músicas, naturalmente, é cantada em alemão, porém as duas últimas também foram cantadas em português. Uma delas é a famosa (e formosa) "Edelweiß", mesmo nome do grupo e da flor, um trecho do popular musical A Noviça Rebelde. A última música falava das saudades e da tristeza da despedida de uma terra, no caso, a dos turistas que deixam a cidade de Treze Tílias. Embora eu não tenha vínculos sentimentais com a cidade de Treze Tílias, ao contrário do que acontece com Curitiba, foi algo especialmente tocante. Todos os presentes se deram as mãos e, enquanto cantarolavam a música em boccachiusa, um dos membros do grupo discursou, falando a respeito do significado da Edelweiß. Transcrevo, de maneira aproximada, o que ele disse:

"Esta flor, que cresce nas rochas dos Alpes, é considerada no Tirol como a maior prova de amor. Este amor não significa somente o do homem para a mulher e vice-versa, mas o amor do homem para com o espírito. Algum dia, teremos de deixar este mundo e estaremos diante do trono de Deus. Oxalá possamos levar algo a Ele, com a certeza de que este mundo terá se tornado um pouco melhor graças à nossa peregrinação por ele, ainda que nosso legado seja pequeno. Certamente que não ireis às rochas dos Alpes, onde muitos morrem tentando pegar a flor de Edelweiß, porém, deve esta flor nascer no coração de cada um de nós."

Apesar de acharmos tudo isso de um sentimentalismo um tanto quanto exagerado, e talvez, num lugar não exatamente adequado para dar lições de ordem espiritual, não deixam de ser comoventes estas palavras. Nota-se que o imigrante tem um apego à sua terra de origem muito maior do que o próprio nativo. Treze Tílias é o Tirol brasileiro que nem mesmo no próprio Tirol austríaco existe mais. Por isso deizemos: esta é a típica cultura catarinense. E, portanto, não menos brasileira. Hoje é o último dia em Treze Tílias, a próxima parada será Florianópolis, após uma longa marcha cruzando o estado de Santa Catarina rumo ao leste.


Florianópolis, 8 de janeiro de 2005

Limpa, bonita e desconfortável. Assm pode ser descrita a capital de Santa Catarina, o mais charmoso dos estados brasileiros. Carinhosamente conhecida como "Floripa", talvez possa ser considerado o melhor dos balneários do Brasil. É interessante notar que, ao cruzar de oeste a leste o estado de Santa Catarina, praticamente não se vê exclusão social. Nota-se que quase não há favelas, nem pichações, tanto no interior quanto no litoral e na capital, ao contrário do que acontece em São Paulo e no Paraná. No dia de ontem fomos observando que não há grandes riquezas em Santa Catarina (à exceção do centro de Florianópolis, bem rico). Mas também não há pobreza. Vemos as terras cultivadas; cada casa, por mais simples que seja, tem arranjos de flores na varanda, e ainda contamos com a cordialidade dos catarinenses em cada lugar onde paramos, desde o estalajadeiro da rodovia até o atendente do hotel. Quanto à capital, vemos que não é diferente, salvo pelo inconveniente de ser uma cidade praiana de clima abafadíssimo, com temperaturas que atingem facilmente os 40°C, e da areia da praia. Mas há quem goste de tudo isso: ficar torrando na areia, fazer passeio de barco com um aparelho de som tocando a axé music (ou seria "bunda music"?) no volume mais forte, dormir com a pele vermelha e toda dolorida, à exceção dos negros cuja pele não queima com facilidade nem fica vermelha. Ainda assim, parece preferível passar por todos esses apuros em Florianópolis, que é uma cidade típica de primeiro mundo, do que em qualquer outro balneário do Brasil. Felizmente, hoje chega ao termo a estadia nesta tão bela, tão limpa e tão desconfortável cidade e amanhã, se Deus quiser, estaremos novamente em Curitiba, fazendo o caminho de volta para São Paulo.


Curitiba, 9 de janeiro de 2005

Enfim, chegamos ao último e melhor dia da viagem. Após o tranqüilo caminho de 3 horas de Florianópolis a Curitiba, o dia foi o mais típico de um turista. Encontrei minha onipresente amiga Mayra Terzian, que está participando da oficina de música de Curitiba. As datas de viagem coincidiram. Logo após chegar ao hotel, deixar a bagagem e almoçar, encontrei com ela na praça Santos Andrade, no centro da cidade, onde ficam os hotéis onde eu e ela estamos hospedados, e fomos a uma banca de jornal comprar o mapa da cidade. Interessante que a moça que estava na banca vendendo começou a puxar assunto conosco, ao perceber que somos paulistanos, o que coloca por terra a idéia de que o curitibano é um povo frio e pouco comunicativo. De lá, seguimos até a Praça Tiradentes, marco zero da cidade. Lá, pegamos a linha turística, que passa por todos os pontos turísticos mais importantes de Curitiba, a maioria nas zonas norte e oeste da cidade. Interessante foi notar que a cada ponto turístico era anunciado um pouco da história, em português, espanhol e inglês. Havia também uma considerável quantidade de turistas estrangeiros por lá; na nossa frente, tinha um casal de turistas alemães.
Passamos por pontos famosos como o Jardim Botânico, o Bosque Alemão, o Museu Oscar Niemeyer, e o teatro da Ópera de Arame. Após algumas fotos, seguimos a pé para o Parque Tanguá, onde ficamos dando de comer aos gansos que planavam pelas águas do lago. À noite, após um jantar na rua 24 horas, seguimos para o Teatro Guaíra, onde assistimos a um concerto com peças como o Prelúdio à l'après-m idi d'um faune, de Debussy, o Idílio de Siegfried, de Richard Wagner, e a suíte "A História do Soldado", de Ígor Stravinsky. A acústica do Guaíra é tão boa quanto a de qualquer teatro paulistano e a disposição da platéia e dos camarotes é muito superior à do Teatro Municipal de São Paulo, embora nem de longe tenha o mesmo glamour.
Enfim, cruzamos a cidade de Curitiba quase que por completo. Ficou faltando somente a zona sul, que eu já conhecia; a Cidade Industrial, que não tem nada de interessante, e o parque do Barigüi. Em resumo, confirmando o que eu disse na primeira mensagem, fica aqui meu veredicto sobre Curitiba, sob o viés de um paulistano: Curitiba é, seguramente, a melhor e mais evoluída das metrópoles brasileiras depois de São Paulo. Amanhã, deixo esta cidade novamente com uma doce e agradável lembrança. E agora, chegando ao fim da viagem, começam efetivamente os trabalhos do ano de 2005.


Escrito por Fábio Soldá às 22h46
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