"A Criação", de Joseph Haydn, na Sala São Paulo
No último sábado estive na Sala São Paulo assistindo à apresentação do oratório "A Criação" (Die Schöpfung), do compositor austríaco Joseph Haydn. Considerada por muitos sua obra máxima, teve uma execução primorosa, sob a batuta do maestro John Neschling na orquestra e da maestrina Naomi Munakata no coro, além dos três solistas - uma soprano, um tenor e um barítono.
Ouvi comentários negativos a respeito do excesso de vibrato na voz da soprano, embora não tenha percebido tantos problemas assim. Entretanto, já ouvi algumas árias deste oratório com uma soprano sem vibrato, e realmente a execução é mais "limpa", parece mais palatável aos ouvidos. Entretanto, os momentos máximos deste oratório são os coros, e não as árias em solo.
Escrito no final do século XVIII, este oratório conta os sete dias da criação do universo de uma forma singela e poética. A abertura é a representação sinfônica do caos, antes de o barítono anunciar o fiat criador. É interessante a forma como Haydn contrasta as forças do bem e do mal por meio da música. A certa altura, é anunciada a condenação dos espíritos do mal à noite eterna, e logo em seguida entra uma melodiosa ária de soprano, descrevendo como o Senhor criou o reino vegetal, designando as plantas que servem de alimento, as que servem para curar doenças, e aquelas que existem "para o deleite da vista". Ao fim desta ária, há um belo contraste com o anúncio do terceiro dia da criação, e temos aí o primeiro dos grandes coros do oratório: "Empunhai vossas harpas! Fazei ressoar os cânticos de louvor ao Deus Poderoso!" (Stimm an die Saiten, ergreift den Leier!). Este belo e imponente coro, cantado em fuga, é um dos pontos máximos do oratório; uma verdadeira música celestial.
Logo em seguida, ao ser anunciado o quarto dia da criação, entra uma passagem terna, descrevendo o fenômeno da alvorada, em que o sol aparece como um "elegante noivo seguindo ao altar". Segue-se a isto outro dos grandes coros do oratório, cantado em rondó: "Os céus testemunham a glória de Deus, e o firmamento ostenta a obra de suas mãos" (Die Himmel erzählen die Ehres Gottes). É provável que este seja o mais famoso dos coros de todo o oratório (embora não propriamente o melhor).
No mesmo esquema, segue o quinto dia da criação, em que é descrita a forma como Deus criou os animais. Ao final do quinto dia, o anjo anuncia: "mas nem tudo está pronto ainda. Falta ainda aquele que admirará o trabalho do Senhor". E aí é descrito o sexto dia, ao final do qual surge novamente o coro triunfante: "A grande obra está terminada!" (Vollendet ist das große Werk).
A última parte do oratório tem os diálogos amorosos de Adão e Eva, de uma beleza excepcional, tanto na música quanto nas palavras. A uma hora surge o anjo, dando bênçãos a eles e avisando que não devem procurar saber mais do que devem. E desta forma, entra o maravilhoso "gran finale", em fuga: "O Senhor é grande, e sua glória será eterna. Amém!" (Des Herren Ruhm, er bleib in ewigkeit), cantado pelo coro e pelos solistas, fechando o oratório com chave de ouro.
Em geral, os oratórios constituem um gênero menos apreciado do que outros, como a ópera, e por isso mesmo foi geralmente deixado a segundo plano pelos grandes compositores, sendo poucas as obras-primas. Por esta razão, a "Criação" de Haydn e o "Messias" de Haendel se tornaram praticamente sinônimos de oratório; talvez a única unanimidade em todo o mundo.
Escrito por Fábio Soldá às 18h27
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