As estações do ano e as faculdades humanas
Seguindo a tendência das últimas semanas, deixamos um pouco de lado o costumeiro discurso de condenação ao PT, a fim de abordar um assunto menos ideológico ou político.
Presentemente, estamos vivenciando a estação do outono. As temperaturas começam a entrar em declínio, e as atividades físicas também. Nesta época deixamos de escutar os famigerados "hits" de verão no rádio e na televisão - cada ano é um, sempre com letra cada vez mais fútil: em 2001 foi aquela onda do "bonde do tigrão", "dança da motinha", "egüinha pocotó" e outras monstruosidades. Em 2002 tivemos o "aserejé", até que circulou um boato na Internet dizendo que era música do diabo, uma forma disfarçada de convidar o interlocutor "a ser herege" (e depois, foi desmentido pelo Padre Quevedo). Em 2003 foi a vez daquela outra ode malcriada à indiferença: "tô nem aí, tô nem aí, pode me falar dos seus problemas que eu não vou ouvir". Em 2004 tivemos os Tribalistas, fazendo apologia à libertinagem: "não sou de ninguém; eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também". Agora, em 2005, temos aquela: "hoje é festa lá no meu apê, pode aparecer, vai rolar bundalelê", uma paródia de péssimo gosto baseada na música "Dragostea din Tei", de uma banda romena. As músicas popularescas típicas de verão, como o pagode e o axé, já não se ouvem tanto - ao menos em São Paulo; enquanto parece aumentar a sensibilidade à música clássica, especialmente a religiosa (música sacra). Também nesta época as propagandas eróticas de cerveja, enfocando temáticas com peitos, bundas e outras coisas que mexem com a libido de qualquer homem que se preze, deixam de veicular; ainda que a Kaiser tenha amenizado um pouco o tom este ano e usado uma modelo realmente graciosa como garota-propaganda. Não se vê mais pessoas andando de bermudas, minissaias e sandálias na rua, mas sim com as pesadas vestes de lã, de peles e outros tecidos sintéticos: blusas, casacos, coletes, botas.
Chegamos agora ao outono, e até meados da primavera, as pessoas de mais sensibilidade respondem a estímulos mais elevados. Já não sentem tanta libido, nem muita disposição para sair com amigos, tomar bebidas alcoólicas, e até por isso grande parte das pessoas execram o clima frio. No lugar disto, passam a aflorar mais intensamente as atividades espirituais. Os mais sensíveis passam a ter mais disposição para raciocinar, refletir, amar, comover-se, sorrir, chorar. E até mesmo para rezar. Há quem diga que o frio e o tempo nublado causam sensação de tristeza, mas não é verdade. É precisamente nessa época em que parecemos ter mais facilidade de entrar em contato com Deus, uma vez que o espírito não fica tão conectado ao corpo. Todos os sentimentos nesta época são mais intensos, não somente a tristeza, mas a alegria também. A astúcia dá lugar à inteligência. A paixão cede lugar à ternura. Fatos que até poderiam nos deixar indiferentes em janeiro ou em fevereiro, passam a tomar dimensões muito maiores nesta época do ano. Fatos como uma demissão, a ruptura de um casamento ou namoro, a morte de algum familiar, crise financeira, tudo isso é capaz de derrubar as pessoas sensíveis de uma forma inevitável. Assim como os fatos opostos, como aquisição de um bem muito desejado (casa própria, automóvel, computador, etc.), o início de um relacionamento com uma pessoa que amamos, o nascimento de uma criança, e mesmo outros pequenos prazeres da vida, por menores que sejam, podem causar um sentimento de tamanha alegria que poucos podem experimentar.
Escrito por Fábio Soldá às 12h10
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A farsa das profecias
Com a mudança de pontificado, tem circulado na Internet uma suposta profecia realizada por São Malaquias a respeito de todos os papas que viriam na Terra até o juízo final. Como qualquer profecia, é escrita em linguagem cifrada e só acabamos sabendo mesmo o que queria dizer depois de o fato já ter sido consumado.
É de se notar que muita gente gosta de fazer sensacionalismo em cima das profecias e tentam sempre achar alguma coisa, por mais oculta que seja, para dar respaldo à profecia. A profecia de São Malaquias consiste em designar cada papa com algum dístico diferente, que teria alguma relação com o pontificado. Vejamos alguns:
Religio Depopulata (Bento XV):, literalmente, "a religião despovoada". O pontificado de Bento XV aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial, e o papa tentou de tudo o que esteve a seu alcance para promover a paz, sem êxito. Há aqueles que interpretam como "as pessoas sem amor", "sem Deus", para justificar esta profecia. Entretanto, não há registro de que as pessoas em geral ficaram menos religiosas nesta época. A grande maioria das pessoas ainda hoje continua sendo religiosa, como em todas as épocas. Em termos de Igreja Católica, a religião começou a ficar "despovoada" no pontificado de Paulo VI, e não no de Bento XV - quando estava em franco crescimento na América Latina, como está hoje na África.
Fides Intrepida (Pio XI): Se há um lema que não se pode aplicar a Pio XI é o de "fé inabalável" (Fides Intrepida). Pio XI era contra o regime fascista até a assinatura do tratado de Latrão com Mussolini, que criava o Estado de Vaticano, independente da Itália - então passou a apoiar o regime. Que raio de "fé inabalável" é essa? Só se fôr fé nos interesses pessoais.
Pastor Angellicus (Pio XII): Pastor angélico. Embora ele tenha dado alguma proteção aos judeus na época, teve uma atuação muito aquém do esperado para um papa diante da barbárie na Segunda Guerra Mundial, ainda que ele tenha sido declaradamente contra o regime. Também não tinha o carisma de João XXIII ou de João Paulo II para ser considerado realmente um pastor. Erro crasso.
Pastor et Nauta (João XXIII): Pastor e navegante, ou pastor e viajante. Há quem atribua a palavra "nauta" ao fato de ele ter sido bispo de Veneza, a "cidade dos canais". João Paulo I também era, e muitos outros pontífices também. O dístico "Pastor et Nauta" parece ser muito mais próprio a Paulo VI e a João Paulo II do que a João XXIII. Entretanto, por que nenhum dístico mencionando o Concílio Vaticano II - maior feito de seu pontificado - foi escrito?
Flos Florum (Paulo VI) e De Medietate Luna (João Paulo I): Bom, vá lá. Consideremos estas como acertadas. Paulo VI tinha o desenho de uma flor de lis no brasão (flor das flores), e o pontificado de João Paulo I durou 34 dias. Ressalva: toda lunação tem cerca de 28 dias - uma semana a menos. Eu não era nascido na época de João Paulo I, mas se o pontificado começou na lua minguante, ele morreu na lua nova. Se ele morreu na lua minguante, o pontificado começou na lua cheia. Quanto à flor-de-lis, ela também aparecia no brasão do papa Leão XIII.
De labore Solis (João Paulo II): Dizem que ele recebeu este dístico por ter nascido no dia de um eclipse solar. Outros, por ele ter nascido na Polônia (terra do leste). Seja lá como fôr, um eclipse acontece duas vezes ao ano em algum lugar do mundo, e é muito provável que vários outros papas tenham nascido quando acontecia um eclipse solar. De qualquer forma, para um pontificado tão notável e tão cheio de fatos como foi o de João Paulo II, este dístico parece ser vago demais. João Paulo II era pastor, tanto "nauta" quanto "angellicus", por ter sido o papa que deu a volta ao mundo, e pela grande nobreza de espírito, graças à qual ele pregou a paz no mundo entre todos os povos e todas as religiões.
De gloria olivæ (Bento XVI): Antes de ele assumir, pensavam que ele ia ser um africano (cor da oliveira), ou de algum país mediterrâneo, ou que ele ia ser de origem judaica, ou alguma outra coisa a ver com oliveiras. Nada disso. Quem acabou assumindo foi um teólogo bávaro que não tem nada a ver com oliveiras. Agora já tem quem diga que esse é um dístico dos grandes sábios e intelectuais. Por que antes de ele assumir ninguém pensou nessa hipótese? Até que aconteça algo no pontificado dele que justifique, esta é outra das profecias furadas. Uma amiga minha até que tentou alguma coisa para dar respaldo a essa profecia: Bento XVI tem dois gatos de estimação nos aposentos papais, e gatos adoram azeitona. Provavelmente os gatos pontifícios também.
Petrus Romanus: Dizem que este vai ser o último papa da história, e, "na última perseguição, Pedro, o Romano, apascentará suas ovelhas em meio a muitas tribulações, e a cidade das sete colinas será destruída, e o temido juiz julgará seu povo". Ou seja, Roma vai ser destruída e, assim, a Igreja vai se esfacelar. A única possibilidade de isso acontecer é se o tal Petrus Romanus fôr algum boçal à la Bush e começar a apoiar as guerras no Oriente Médio - aí aparece algum terrorista da Al-Qaeda, um Osama bin Laden da vida, e faz com o Vaticano a mesma coisa que fizeram com as Torres Gêmeas. Se o próximo papa fôr esperto, ele vai adotar a postura conciliadora que marcou o pontificado de João Paulo II e está marcando o de Bento XVI. Quanto ao nome; até agora nenhum papa adotou o nome de Pedro II, e certamente não será o próximo que vai adotar, a menos que ele tenha nascido em Roma e o nome de batismo dele seja algo como "Pietro". Os mais catastrofistas dizem que no pontificado dele vai acontecer o juízo final - até de quem não tem nada para ser julgado, porque é de outra religião que não a católica - ou seja, quase 80% do mundo. É esperar para ver.
O caso é que, depois que acontece a profecia, todo mundo fica querendo arrumar uma coisa para dar legitimidade. Ou o lugar do nascimento, ou o brasão, ou algum evento que tenha acontecido no pontificado, ou qualquer outra coisa. Se assim fôr, até eu viro profeta. Imagine criar uma lista dessas para os presidentes do Brasil. Se fôr assim, o dístico de Collor seria "Populus Trahitus" (povo traído), o de Itamar Franco seria "Panis Casei" (o pão de queijo), o de FHC seria "Studens Societatis" (sociólogo), e o de Lula seria "Asinus Dedigitatus" (o asno sem dedo). Se eu disser que o próximo presidente deverá receber o dístico de "Simius populi" (o macaco do povo), aí aparecem várias possibilidades. O Garotinho? É possível, por ser demagogo (político que faz micagens). O Alckmin? Também é possível; podem dizer que ele vai "imitar" o FHC ou o Covas, e quem imita é macaco. O Requião, ou o Lerner? Serve, porque os dois são paranaenses, terra da araucária, que é chamada de "monkey puzzle tree" em inglês. E qualquer profecia assim, em dísticos, que qualquer um fizer, vão sempre achar alguma coisa no meio para tentar justificar. Se bem que esse último dístico até para o Lula serve, já que ele vive pagando mico nas viagens fora do Brasil...
Escrito por Fábio Soldá às 13h55
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