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A profanação da criatividade musical

É com certa tristeza que tenho observado os rumos da arte musical, desde o final da Segunda Guerra. Não somente no Brasil, mas no mundo inteiro. Não se trata de uma crítica à má qualidade da música dos últimos tempos, como seria de se esperar. Ao contrário, muitas idéias musicais de boa qualidade surgiram de lá para cá. O problema é que essas idéias foram muito mal empregadas. Hoje não se compõe mais por amor à arte, ou, como disse Händel, "tornar os homens melhores". Quem compõe com esses propósitos não têm reconhecimento. Os acadêmicos criticam porque acham que os músicos têm que inovar. O público em geral quer alguma coisa que apenas os divirta. É por isso que, das músicas compostas na última década, algumas das mais primorosas melodias, como os temas introdutórios das músicas "Ta på meg" (ou seja "Take on me", na versão inglesa) e "The Final Countdown", dos grupos A-Ha e Europe, respectivamente - para citar dois casos notáveis - em vez de se tornarem temas obras musicais grandiosas e magistrais, foram reduzidas à superficialidade. Estas, como muitas outras bandas de rock - em sua maioria, européias - são formadas por músicos muito talentosos que não usaram todo o seu potencial criador, e muito bem poderiam estar escrevendo música erudita em vez de rock. É óbvio, todavia, que não me refiro às famigeradas "boy bands", tipo Hanson e Backstreet Boys - a música destes é lixo mesmo, sem nada de aproveitável. Enquanto isso, autores de melodias igualmente primorosas que souberam transformá-las em grandes obras, como o compositor brasileiro Amaral Vieira (seu Stabat Mater é uma verdadeira obra-prima), e mesmo os mais jovens como Toni Jardini e Gregório Calleres, dificilmente são executados e pouca gente conhece.

E o que se escuta realmente nas igrejas? Parece que o destino foi ainda pior. Quando eu fazia catequese, não se executava realmente música sacra, mas apenas músicas populares com letra religiosa, a maioria do famigerado Padre Zezinho. Depois nós tivemos o padreco Marcelo, que começou a transformar a igreja num carnaval e virou um fenômeno de mídia, misturando a oração com a diversão; uma verdadeira heresia. E agora, fica a pergunta: como será a música daqui a vinte anos? Será que ainda tem salvação? Ou será que tem mais aonde se afundar?

Escrito por Fábio Soldá às 13h34
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