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A Gazeta da Meia Noite
 


A árdua atividade de escrever música

Tenho de voltar atrás no que escrevi no último post. Passadas algumas semanas desde que escrevi aquilo, vejo me às voltas com um concerto para violino - orquestras de cordas são a única coisa a que eu tenho acesso potencial. A cartilha da humildade diz que, quando a gente não consegue fazer algo melhor, o mais prudente é não criticar.


Que atire a primeira pedra o compositor que nunca quis ser notado como os grandes. É nessas horas em que surge a ânsia de querermos compor cada vez mais, e sempre achar imperfeitas nossas músicas. Depois de ter aparecido um Beethoven, e mais tarde um Mahler, parece que por mais que nos esforcemos para escrever grandes sinfonias parece sempre inútil chegar a algum resultado melhor. Uma sinfonia bem feita, bem elaborada e que custa muito do nosso tempo para escrever pode resultar em alguma sinfonia como as de Mozart - ou as de Haydn, que conseguiu escrever 104 sinfonias. Eu já tive quatro experiências escrevendo sinfonias. A primeira delas eu fiz em caráter experimental, só para ter o conhecimento da forma. Na segunda sinfonia, emendei várias peças avulsas que eu tinha e não sabia onde encaixar. O resultado, naturalmente, foi inusitado; por isso mesmo eu a apelidei de "Sinfonia Fantasia". Mas na terceira sinfonia eu já pretendia fazer uma obra mais grandiosa, que de certa forma impressionasse o público. Qual não foi minha decepção quando eu a mostrei a um amigo, e ele me respondeu: "não vejo aí sua personalidade. Essa sinfonia está a cara de Mozart".


Quem é leigo no assunto, pode achar um elogio ser comparado a Mozart. Não é. O mérito de Mozart foi escrever grandes obras-primas com uma velocidade espantosa, e já com cinco anos de idade ele compunha. Nos seus 35 anos de vida, Mozart escreveu nada menos que seiscentas obras, e estas obras estavam dentro de uma estética mais ou menos nova. Entretanto, depois de Mozart surgiu Beethoven; depois de Beethoven surgiu Wagner, e depois de Wagner surgiram Mahler e Ravel, cada um deles usando mais e mais recursos musicais. Hoje, o estilo de música de Mozart pode ser imitado por qualquer pessoa que tenha conhecimento de teoria musical.


Voltando ao concerto para violino: no último domingo, estive na Casa da Fazenda do Morumbi, onde assisti a uma apresentação do coral e da orquestra da Sociedade Pró-Música Sacra de São Paulo. O primeiro número do programa foi um... concerto para violino. De Vivaldi. Um dentre os mais de quatrocentos concertos que ele escreveu. É um concerto curto, evidentemente (não tinha mais de 10 minutos de duração), e apenas mais um dentre os que ele escreveu. Belo, mas nem melhor nem pior que os demais. E se contarmos os concertos para violino de outros contemporâneos de Vivaldi, tais como Corelli ou Geminiani, teremos um número gigantesco de obras, de forma que uma tomada isoladamente sempre será mais uma.


Em compensação, quantos concertos para violino Mendelssohn escreveu? Somente dois. Entretanto, provavelmente estes dois concertos só não sejam mais famosos que os quatro que compõem a série Le Quattro Stagioni, de Vivaldi. Mas o que faz, então, esses concertos serem tão especiais? Muito simples: a linguagem própria e genuína de Mendelssohn - e isso para não falar de Niccolò Paganini, considerado por muitos (e não sem razão) o melhor violinista de todos os tempos. Não veremos um único concerto de Vivaldi, nem de Corelli, nem de Geminiani com a mais remota semelhança a esses concertos de Mendelssohn. A começar pelo próprio tamanho: só o primeiro movimento do Concerto para Violino em Mi Bemol Maior, opus 64, é maior do que qualquer concerto de Vivaldi na íntegra. Mesmo assim, Mendelssohn nasceu há quase dois séculos. Meus esforços em querer escrever um outro concerto desses usando um estilo diferente dos demais têm sido inúteis - e aí o grande desafio é conseguir isso sem comprometer a beleza. Será que teria necessidade disso? Será que eu teria que recorrer ao atonalismo, ou outra técnica do século XX? Aí eu estaria sendo falso demais comigo mesmo. Nunca achei beleza na música serial, nem na música atonal, muito menos nas músicas que nem melodia têm. Eu não estaria sendo autêntico se tivesse que recorrer a isto. E há quem diga que até o gênero dos "concertos" caíram em desuso.


Talvez o melhor mesmo seja deixar a coisa fluir, mesmo que não gostemos muito. Tentei me empenhar muito em várias obras "grandiosas" (ou projetadas para ser grandiosas), como a terceira e a quarta sinfonia; entretanto, muitos me disseram que minha obra musical mais bonita e mais tocante é a singela e despretensiosa Sonata para Piano nº 2 em Dó Sustenido Maior, mais conhecida como "Sonata do Pinheirinho". Será que foi por isso que eu nunca mais consegui escrever outra sonata para piano?



Escrito por Fábio Soldá às 16h32
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