Miguxês e Wikipedês: ux doix novux diale(c)tux da língua poitugueza
A Internet realmente mudou todos os setores da sociedade. Até mesmo a língua portuguesa hoje já não é a mesma. Originalmente, tínhamos apenas dois dialetos principais: o português e o brasileiro e, dentro destes, outros dialetos minoritários, como o caipira e o trasmontano.
Não sei dizer em outras línguas, mas suponho que fenômeno semelhante esteja acontecendo devido à influência da Internet. Não falo de palavras abreviadas como “pq”, “vc” e outras, porque são suficientes para transmitir uma idéia de maneira informal. Mas existem novas formas escritas do português que são forçadas. Duas dessas curiosas formas de linguagem, talvez as mais significativas, são o que chamo de “miguxês” e de “wikipedês”.
No que consistem, pois, esses dialetos?
Acho que o título desse artigo já diz tudo. O miguxês é a forma de escrita popularizada entre as adolescentes do sexo feminino, que talvez seja a provável "heranxa da Xuxa" e o estrago que o programa dela fez numa geração inteira. A palavra deriva de “miguxa”, forma polida de duas adolescentes se tratarem. Os dois fenômenos mais evidentes são a ausência de maiúsculas (ou alternância dessas com as minúsculas na mesma palavra), o uso abusivo dos diminutivos, a permuta do r intervocálico em l, a permuta do s em x (em todas as circunstâncias), a permuta de “o” átono em “u” no final das palavras, e a ausência de sinais diacríticos: o ç também permuta em x, e o ditongo nasal “ão” verte-se em “aum”. O miguxês tem um subdialeto, que é o "miguxês hieroglífico", utilizado nos comunicadores instantâneos - particularmente no MSN Messenger - que é a substituição de palavras, grupos de fonemas e radicais por figuras, sendo muitas delas animadas.
Para exemplificar, transcrevo abaixo o poema “Língua Portuguesa”, de Olavo Bilac.
Em português:
“Última flor do Lácio, inculta e bela, És, a um tempo, esplendor e sepultura: Ouro nativo, que na ganga impura A bruta mina entre os cascalhos vela
Amo-te assim, desconhecida e obscura Tuba de alto clangor, lira singela, Que tens o trom e o silvo da procela. E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma De virgens selvas e de oceano largo! Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna de Camões ouvi: 'Meu filho' E em que Camões chorou, no exílio amargo, O gênio sem ventura e o amor sem brilho!”
E em miguxês:
“UlTiMa fLoR du LaXiu iNKuLTa i bELa eIx a uM tEmPu iXpLeNdOr i XePuTuLa: oLu nATiVu kI nA gAnGa iMpULa a buTa mINa eNti ux kAxKaLHux vELa
tI aMu aXiM dIxKoNhExIda i obIXkuLa tUbA dI aLtU kLanGOr, LiLa XiNGeLa kI tEnX u tLoM i u xILvu da poXeLa i u aRroLu dA XaUdaDI i dA tEnuLa
aMu tEu vIxU agLeXti i tEu aLoMa dI vIgeNx xEuvAx i dI oXeaNU LaGu tI aMU o LuDi i dOLoLoZu iDioMa
iM kI Da vOx mAtEIna dI kaMoiNX oVI mEu fiLhU i iM ki kAMoiNx xOLoU nU eZiLiu amAiGu u geNiu xEiM veNtuLa, i U aMoLi xEiM BliLHu”
Já o wikipedês, mais difícil de exemplificar, é a forma insistentemente adotada por alguns administradores da Wikipedia em certos artigos, e que consiste precisamente na justaposição da grafia do Brasil e da de Portugal, de modo que num mesmo contexto somos forçados a ler palavras como “proje(c)to”, “acadê(é)mico” ou “Amsterdã(o)”, ou ainda usar as duas palavras, quando uma é desconhecida da outra. Em vez de tapete, passaríamos a escrever “tapete/alcatifa”. Em vez de trem, passamos a escrever “trem/comboio”, e em vez de ursinho de pelúcia, escreveríamos “ursinho/panda de pelúcia/peluche”. E isso quando não se chega ao cúmulo de escrever “tranqu(ü)ilo”. Se falamos para criar uma Wikipedia em português do Brasil, uma porção de gente é contra porque no Brasil se fala “português”, não existe uma língua brasileira. Talvez por preguiça, ninguém quis até hoje sistematizar o idioma brasileiro, que é a linguagem corrente que usamos. E dá nisso.
Fico até com arrepios de imaginar qual vai ser a próxima moda. Melhor eu nem dizer o que estou pensando, para não espalhar...
Escrito por Fábio Soldá às 23h30
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