"A Flauta Mágica", de Mozart, no Teatro Municipal de São Paulo
No ano dedicado ao grande mestre da música erudita Wolfgang Amadeus Mozart, nada mais justo do que fazer uma programação teatral com base em suas óperas, e menos ainda seria permitido deixar de fora a ópera "Die Zauberflötte", ou "A Flauta Mágica" em português, a qual considero, de longe, a melhor de suas óperas e talvez a melhor de todo o período clássico.
Pouco antes de começar a ópera no salão nobre, via-se um espetáculo a parte, denominado "Fragmentos Mozartianos". Em cada aposento do teatro, havia alguém interpretando peças de Mozart. No saguão, um quarteto de cordas tocava a famosa Eine Kleine Nachtmusik. Em outro aposento, uma dançarina fazia acrobacias tendo, como fundo, o concerto para piano nº 21, igualmente belo. Mesmo no salão nobre, minutos antes de o maestro Jamil Maluf assumir o pódio para reger a abertura da ópera, um organista tocava o Ave Verum Corpus, enquanto do outro aposento do órgão um homem vestido de branco fazia alguns gestos dançantes.
Talvez a genialidade de Mozart ao escrever "A Flauta Mágica" tenha sido ao conciliar um conto de fadas com lições de vida eminentemente humanas, pontilhadas de símbolos esotéricos maçônicos e rosacrucianos. A ópera se torna especialmente cômica nas cenas protagonizadas por Papageno, um caçador de pássaros que serve à Rainha da Noite e ao qual só interessa desfrutar dos prazeres da vida. Os recitativos traduzidos tiveram um toque de humor que não havia na versão original, quando Papageno diz a Pamina que "não tinha uma Papagena. Nem uma namorada, nem uma 'ficadinha'", ou ainda no segundo ato quando ele é apresentado à "estrangeira" Papagena, e, ao responder uma pergunta sobre o fato de ser estrangeira, ela solta um sarcástico "oh, yes!".
As demais cenas, consideradas "sérias", foram muito emocionantes, especialmente devido à interpretação teatral de Rosana Lamosa, que encarnou a Pamina, do baixo José Gallisa, que interpretou Sarastro, e do tenor Fernando Portari, que representou Tamino. Contudo, a mais aplaudida de todas foi a soprano coloratura Lys Nardotto (a Rainha da Noite) que, apesar de não ter a voz tão potente como exigia o papel, encantou o público com as duas árias que interpretava, atingindo notas estridentemente agudas. Cabe a esta personagem a ária-símbolo da ópera: "Die hölle rache kocht in meinem Herzen" (A vingança do inferno arde em meu coração), em que ela ordena à sua filha Pamina que mate Sarastro. Tornou-se famosa na voz-falsete de Edson Cordeiro, em uma antiga propaganda de televisão.
Parte da montagem cênica foi realizada pela companhia Imago, do "teatro negro", que deu um toque de magia ainda maior na ópera. O cenário era basicamente de coloração preta, roxa, amarela, verde e vermelha, e decorado com motivos egípcios - pirâmides, hieróglifos, imagens de faraós. Coube a eles fazer animações como os animais que eram atraídos pelo som da flauta mágica de Tamino e a pirâmide flutuante na primeira cena do segundo ato.
De uma forma geral, a montagem foi perfeita, desde a abertura até a encantadora cena final da ópera, em que finalmente Tamino e Pamina passam pelas provas e são dignos da iniciação. Evidentemente não se poderia esperar muito realismo no cenário como em outras óperas, uma vez que a ação da "Flauta Mágica" é, em si mesma, surreal - apesar de estar cheia de símbolos para verdades ocultas. Antes ainda houve a encenação da ópera "As Bodas de Fígaro", que por motivos pessoais não pude ver. Para completar a série faltou apenas "Don Giovanni". Há quem diga que, assim como a "trilogia verdiana" é composta por Rigoletto, Il Trovatore e La Traviata, há também uma "trilogia mozartiana" composta por "As Bodas de Fígaro", "Don Giovanni" e "A Flauta Mágica".
Escrito por Fábio Soldá às 10h50
[]
[envie esta mensagem]

|