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A Gazeta da Meia Noite
 


Tempos melancólicos

Se 2005 foi um ano triste, pode-se dizer que 2006 parece ser um ano cansativo. Embora já não paire a mesma nuvem negra sobre o mundo que há um ano atrás – talvez não por grandes acontecimentos bons, mas porque o mundo já se acostumou com a nova condição. Anos pares que não são múltiplos de quatro, em especial para o Brasil, sempre são um pouco cansativos.

Ocorre que desta vez a situação é um pouco melancólica. Temos a disputa da copa do mundo, mas o Brasil não tem o mesmo brilho de outras copas. Ser hexacampeão não tem mais a mesma graça de ser tetra em 1994, quando o Brasil ficou 24 anos sem conseguir um título mundial. Para o brasileiro médio, o Brasil ganhar a copa não faz mais do que a obrigação. Perdendo a copa, já é o pior time do mundo.

Hoje, dia 18 de junho de 2006, o sentimento nacional é ambíguo. O Brasil venceu a seleção da Austrália por 2 a 0, num jogo sofrido. Entretanto, está de luto pela morte prematura e inesperada do Bussunda, do Casseta e Planeta, certamente um dos mais queridos e admirados humoristas do Brasil – admirado inclusive por mim. E também o que estava mais em evidência. Além das impagáveis sátiras sobre o presidente Lulla (única coisa de engraçado que existiu durante esse governo catastrófico), ele imitava o Ronaldo, maior estrela da seleção brasileira, à perfeição. Sem contar o fictício Marrentinho Carioca, o “craque” do Tabajara F.C. O sentimento nacional se tornou simultaneamente de alegria e tristeza.

Passada a copa, o Brasil se verá de novo numa situação deveras angustiante. Estamos diante das eleições mais deprimentes desde os tempos de Getúlio Vargas. Temos poucos candidatos, poucas propostas, e em vez de divulgar os planos de governo, ocupam seus tempos para se atacarem. Definitivamente, o PT acabou com as esperanças do povo brasileiro. Desde que existem, fizeram uma oposição implacável e venenosa contra qualquer tipo de governo. Fizeram uma verdadeira lavagem cerebral no povo brasileiro, moldando-lhe a ideologia. Neoliberalismo é ruim. A ALCA é acabar com a soberania nacional. E o PT, assim como os partidos de esquerda mais radical como o PSTU, acusavam o governo do PSDB de ser “neoliberal” - sendo que foi na verdade um governo parcialmente neoliberal, pois reduziu o número de estatais (privatizações), mas manteve alta carga tributária.

Os partidos disputam pelo poder, e não defendem sua ideologia. Alckmin vem fazendo uma campanha decepcionante. Tem boas idéias, e poderia muito bem defendê-las. Mas prefere ocupar seu tempo de campanha atacando o Lula. Não diz que o neoliberalismo, se fôr realizado em toda a sua plenitude, pode ser bom. Também não diz que a ALCA tende mais a ajudar do que atrapalhar o Brasil, desde que o acordo seja bilateral. Teremos acesso às coisas de última tecnologia provenientes dos Estados Unidos; em troca, seremos parceiros preferenciais na compra do que produzimos de melhor aqui. Vejamos o exemplo da União Européia. Países que estavam economicamente arrasados por causa de ditaduras, como Portugal e Espanha, assim como outros mais atrasados como a Grécia e a Irlanda, só estão conseguindo se desenvolver hoje porque se aliaram aos “primos ricos” na União Européia, como a Alemanha e a Itália. O Brasil ainda tem a vantagem de ser um país muito mais rico e mais competitivo do que Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda e os novos membros do Leste Europeu – lembrando que a existência de pobreza não significa que o país em si seja pobre. Por que, então, temer a ALCA?

E o neoliberalismo? Por que é bom?

A esquerda demonizou o neoliberalismo e provavelmente não sabe por quê. O neoliberalismo é apenas uma versão adaptada aos tempos modernos do que foi a escola liberal defendida por Adam Smith no século XVIII. Era o princípio do “laissez-faire, laissez-passer”. Significa a retirada do Estado dos assuntos econômicos. Privatizando, diminui a participação do Estado na economia. Diminuindo impostos, também. Paradoxalmente, no caso brasileiro, uma política neoliberal também é social-democrata. Com menos impostos, menos burocracia e leis trabalhistas mais flexíveis, as empresas privadas encontram meios para se instalar, crescer e não quebrar. Conseqüentemente, gera mais empregos e maior incremento na renda média da população. Com a população mais rica, o governo arrecada mais impostos. E com esses impostos – desde que não sejam desviados para mensalões e outras formas de corrupção – sobra mais dinheiro para investir em saúde, educação, segurança pública e infra-estrutura.

Será que é tão difícil a receita do desenvolvimento, e vender essa idéia? Ou precisa provar que a oposição reza na mesma cartilha do governo para ganhar votos? O Brasil está cada dia pior... e assim mesmo quer continuar o mesmo governo. Simplesmente porque não sabe o que pode aparecer pela frente com o Alckmin, já que o PT, que fez uma oposição venenosa, acabou com toda a esperança de mudança do povo brasileiro.

Escrito por Fábio Soldá às 15h53
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